terça-feira, 15 de maio de 2012

O Menino do Fogo

1


Trilha para leitura:

I
Tinha sido encontrado no que restou da pequena vila à beira da estrada das rosas. O próprio Lorde Pierron o avistou se movendo no chão de terra enegrecida em meio a casas e cadáveres tostados. Um churrasco de palha, madeira, animais e gente. O menino de cabelos loiros amarelados não tinha mais que três anos de idade e milagrosamente – ou ironicamente - parecia ser o único sobrevivente ao ataque dos selvagens verdes da floresta de Wirewood. Para Pierron, aquela devastação e crueldade não parecia ter sido coisa dos elfos, mas de gente, gente humana, gente má, gente dourada.  

Sem rastros dos atacantes, o lorde, príncipe Aires e a pequena comitiva de não mais que vinte cabeças seguiram caminho pela estrada das flores em direção à fortaleza de Lazio. O menino achado nas cinzas da vila arrasada veio junto a pedido de Aires, apesar de que Lorde Pierron dificilmente deixaria a infeliz criança a esmo. Voltavam de um torneio em nome do Rei Arton III em honra ao seu quinquagésimo aniversário, coincidentemente, a mesma idade do lorde de Lazio, que não fora para competir, esteve presente apenas para assistir as justas e escutar o que se falava na alta corte sobre a tensão vivida entre humanos e elfos. Falava-se deem guerra. Genocídio. Destruição.

O menino do fogo chorou por todo o caminho, tinha uma parte do pescoço e o lado direito do rosto levemente queimada, uma criança normal já teria desistido de viver e teria tido o bom senso de morrer, mas o menino do fogo não parecia ser uma criança normal, por motivos óbvios, ele nunca seria uma criança normal. As tochas já estavam acesas há duas horas quando a comitiva finalmente avistou a fortaleza e o castelo azulado, passaram pela a vila Fuentes que estaria totalmente silenciosa se não fosse o choro estridente do pedaço-de-gente-com-o-pescoço-queimado.  Logo chegaram à frente do grande e pesado portão de madeira reforçado com ferro da fortaleza de Lazio.


II
Deu-se o nome de Dartolo ao menino do fogo, e da noite em que fora encontrado até seus 12 anos de idade, foi criado quase como um filho de Pierron, o senhor de Lazio. Dartolo insistia em ser um faz tudo para justificar a hospitalidade dada a ele, mas era mais visto como um amigo da família do que um criado. Naquela época, Príncipe Aires, herdeiro de Pierron, completara vinte e um anos e já tinha sido nomeado cavaleiro há três. A bela Princesa Lucy era cinco anos mais velha que o menino queimado, que sem culpa foi arrebatado pela brancura sedosa e ruivisse fascinante da moça. Dartolo era amigo de ambos, que o tratavam quase como irmão, mas do alto de seus 12 anos de idade, o menino começou a se sentir culpado pelo o que sentia por princesa Lucy. Era jovem ainda, mas sabia que a amava. De alguma forma sabia que a amava mais que tudo na vida. 

Pesadelos terríveis assolavam o menino do fogo. Via pessoas sendo queimadas vivas, degoladas, estupradas. Tudo muito real, tudo muito quente. Fogo, fogo. Sentiu uma dor no estômago, parecia estar sendo chutado. Flocos de cinzas tomavam o ar e... mais fogo. Viu-se sendo puxado por mãos fantasmagóricas para um buraco negro na terra, tentou resistir, se agarrar em algo, mas seus dedos só arranhavam a terra sem sucesso. Até que foi sugado pela escuridão. Trevas, trevas. Enquanto caia não conseguia pensar em mais nada, somente em Lucy, nos seus olhos azulados, no seu sorriso despretensioso. Esticou as mãos e então Lucy sumiu de sua mente, mais nada restava, podia morrer. 

- Dart, Dart! – gritava Lucy sacudindo Dartolo pelos ombros.
- Lu... Lucy... O que... O que você está fazendo aqui? – Indagou o menino do fogo com a voz cheia de terror e segundos depois percebeu que tivera mais um pesadelo e que a princesa o escutara arquejar ou mesmo gritar e viera o socorrer. Mais uma vez.
- Você teve outros de seus... – Começou a princesa.
-...Pesadelos – Dart finalizou.

Lucy pediu para Dart contar sobre o pesadelo se isso lhe apetece, mas ele não ousaria, já que não podia, ou melhor, não deveria contar sobre a parte de que só via o rosto da moça... E que quando a face dela sumiu de vista ele desistiu e morreu. Isso não podia contar. Quisera poder. Sem falar que parecia mais um mau presságio que um pesadelo relativo ao passado queimado. O fato é que lhe amo minha bela princesa, mesmo eu sendo apenas um menino franzino e com o pescoço queimado, lhe amo mais que tudo nessa vida. Pensou, mas preferiu não falar nada sobre o que sonhara. E assim foi. Mais uma vez. Reprimido e aterrorizado por amor, fragmentos do passado, pesadelos e beleza.


Se a música anterior não estiver acabado, pause e dê play nesta:
III
Dart sabia que não podia continuar com aqueles pensamentos em relação à princesa Lucy e tentou manter-se distante dela o máximo que pôde, o que era difícil, a moça tinha certa afeição pelo menino, não como ele gostaria... E o quarto de ambos era no mesmo andar. Resolveu focar no treinamento com espadas, era magro e ágil, se mostrou muito promissor logo de início, desde muito menino tinha certo apreço e habilidade com punhais, ser veloz com uma espada curta não foi lá muito penoso. Sor Gregor, o mestre de armas de Lazio, lhe dizia que poderia ser nomeado cavaleiro até mesmo com menos idade que príncipe Aires tivera sido, mas não quis pensar nisso. Quando me tornar cavaleiro irei para as ilhas Japanias aprender as técnicas secretas dos melhores espadachins de Arton, os samurais, como estranhamente se nomeiam, assim, e só assim, irei para longe de minha Lucy. Se tornar cavaleiro significaria ter sua amada fora de vista pelo resto da vida. Era melhor não pensar.

Com um tempo o menino do fogo notou que sua estratégia dera parcialmente certo, mas lhe doía o peito quando tratava princesa Lucy de forma fria, ela notara, e ele culpava o treinamento puxado para se tornar cavaleiro pela falta de tempo e de atenção. A moça ruiva sabia que tinha algo mais, sentia.

- Por que você quase de repente ficou obsessivo em virar Sor? – Perguntou Lucy ao apático Dart quando o encontrou ao acaso pelo corredor. Ele fingiu que não escutou, que sequer a vira. Entrou no quarto, bateu a porta e quase imediatamente desabou desolado por mais uma atitude ridícula. E lá ficou sentado, com as costas na porta e cabeça entre as pernas, com suas longas mechas amarelas tampando sua visão. Eu, obsessivo? O que menos quero é ficar longe de ti. Quis gritar. Mas era sim sua obsessão, uma paradoxal e dolorosa obsessão. 

Lorde Pierron encomendara uma armadura completa, com todas suas placas forjadas com o aço avermelhado das ilhas Carrión, magnífica e única, juntamente com uma primorosa espada – segundo ele – de um ferreiro de Iliria para o aniversário de quinze anos de Dartolo, mas a lâmina não ficara pronta a tempo dada a já iminente guerra entre humanos e elfos. Os ferreiros de Iliria jaziam muito ocupados com pedidos reais e urgentes. Naquela noite teve um grande banquete, com membros da corte de Lazio e pessoas simples da cidade, ao som de harpas e batuques, mas o que Dart lembraria para sempre daquela noite seria do abraço dado em princesa Lucy, que aquela altura estava prometida ao príncipe Argos de Litânia e se casariam quando o moço completasse quinze anos de idade. Seus braços ficaram entrelaçados no tronco da princesa por quase um minuto e ao perceberem que estavam chamando atenção soltaram-se. Os olhos verdes do rapaz encontraram os azuis da moça de relance, um segundo que pareceu uma vida, o segundo que ela pôde ver sua alma. Sei que ela viu. A bela moça já tinha certeza de suas suspeitas sobre os sentimentos de Dart em relação a ela, mas não queria admitir que começava a sentir algo mais pelo menino do fogo, que era bonito e até parecia ter tido um nascimento nobre, e agora já era quase um homem feito. Só que começou tarde demais. O pesadelo de dois anos atrás, definitivamente se mostraria não como mais um pesadelo de fragmentos do passado de Dart, mas como ele temia: Se tratava de um cruel e fatal presságio.


IV
Dois dias depois de seu aniversário, Dart se preparava juntamente com uma comitiva de vinte e cinco homens de armas e sete criados para marcharem até Iliria, a fim de tratar pessoalmente da demora na forja de sua arma. Lorde Pierron iria pessoalmente se não tivesse a sua saúde minada pela a idade avançada. Esta é a sua primeira missão como um quase cavaleiro, vá à busca de sua lâmina, vá cavaleiro vermelho, disse o velho uma noite antes. O menino do fogo gostou do cavaleiro vermelho. No dia seguinte  seguiu seu conselho e na manhã seguinte escolhera vinte e cinco homens de armas com a permissão do senhor de Lazio, não mais que esse número, a guerra poderia estourar a qualquer momento e não se sabia quem eram os reais inimigos, os elfos ou os próprios humanos. Pierron decidira não apoiar aquela guerra sem sentido e agora era ameaçado pelos homens dourados de Lorde Javier, sedentos por guerra. Dart cogitou deixar pra lá e esperar que a espada ficasse pronta a seu tempo, assim não comprometeria o contingente de homens para defender a fortaleza em caso de ataque, mas o velho disse que era pouco provável de haver alguma investida tão cedo e que Iliria ficava fora dos caminhos que a suposta guerra estouraria.  Então o menino do fogo foi. Seguir seu destino. 

Avistaram Iliria depois de quase um dia inteiro num galope duro, Dart queria fazer aquilo o mais rápido possível e voltar com os homens do senhor de Lazio. Mas de nada adiantou a marcha incessante, após encontrar a oficina que seu pai encomendara sua lâmina não encontrou quem procurava. Mestre Aquarell era um dos mais renomados mestres ferreiro de Iliria e fora convocado à Capital Valkarya pelo Rei Arton III. Aquarell teve pouco tempo para aprontar sua partida e devia ter esquecido-se de mencionar a encomenda do estimado Lorde Pierron. Porém, um dos mestres da oficina comprometeu-se em forjar uma lâmina vinda de Carrión para o menino do fogo, levaria três dias. Dart esperou, depois de muita relutância. 

Depois dos dias que prometera, o velho mestre entregou ao menino do fogo uma magnífica espada com uma lâmina de aço avermelhado vinda da ilha de Carrión, que combinava com sua armadura, o pomo era uma cabeça de dragão com a boca aberta, Dart quase conseguiu imaginar o fogo jorrando da boca da cabeça esculpida no botão da espada. Tratou de agradecer e perguntou quanto custaria tal espada. O velho sacudiu a cabeça de forma estranha e desajeitada e por fim disse que era por conta dele, pelo atraso e inconveniente... E pediu que suas desculpas em nome de Aquarell chegassem aos ouvidos de Lorde Pierron. 


V
Dart e a comitiva cavalgavam a toda velocidade em direção a Lazio quando de repente o menino do fogo pendeu para o lado quase caiu do cavalo. Todos pararam. Dart estava atordoado e estranhamente tonto. Mau presságio. Depois de alguns segundos e sem dizer uma palavra sequer, fez um gesto para continuarem cavalgando. O resto do caminho foi de terror, pelo menos para o menino, seu coração quase gritava de medo. Lembrou-se das mãos fantasmagóricas de um pesadelo de dois anos atrás. Quase caíra do cavalo sem que nada visível... Mau presságio. Por algum motivo quis nunca chegar à fortaleza de Lazio, não sabia o porquê. Bem, saberia logo.

Era noite quando avistaram no horizonte as muralhas azuladas de Lazio à luz da lua... Mas... Mas... De dentro da fortaleza saia uma fumaça escura, que tomava o céu iluminado pela lua cheia, como se tudo do lado de dentro das muralhas ardessem em chamas. Fogo, fogo. Quando pensou em Lucy, Pierron, Aires... Estremeceu. Todos os homens de armas pareceram praguejar ao mesmo tempo, quase desacreditados do que estavam vendo ao longe. Teria a fortaleza de Lazio sido invadida e incendiada? Teria.

Ao chegaram mais próximos das muralhas conseguiram ver cavaleiros dourados de Lord Javier invadirem a fortaleza pelo portão principal aberto, com tochas nas mãos e gritando sons inaudíveis em voz estridentes e cruéis. O cavaleiro vermelho entrou em lapso por um instante. Um rosto de mulher gritando e com lágrimas escorrendo no rosto tomou seus pensamentos, meu filhinho não, meu filhinho não. A jovem sua mãe sendo queimada a sua frente, enquanto ele rastejava pelo chão quente com o pescoço queimado. Lembrou de olhar para cima e ver a placa no peito do cavaleiro que segurava a mulher que esperneava em prantos, uma placa dourada. Gente dourada. Elfos nunca teriam devastado sua vila. Ele tinha nascido do fogo por causa de gente humana, gente dourada de Lord Javier. 

Ainda sem pensar direito seguiu para a entrada secreta na parte de trás da fortaleza junto com seus homens de armas, mas teriam alguma chance? E se todos os homens de Pierron estivessem mortos e se o próprio Lorde estivesse sido morto... Lucy... LUCY!!


VI
Retiraram um grande bloco de pedra azulada da muralha que só alguns poucos de Lazio tinham conhecimento e adentraram a fortaleza. Alguns desceram de seus cavalos e seguiram para batalha, outros preferiram seguir a cavalo, lutar pelo seu castelo, pelo seu lorde, pelas suas vidas. O menino do fogo seguiu a pé para a parte de trás do castelo, precisamente para a torre onde ficava os aposentos de Lorde Pierron, do príncipe e da princesa – e dele próprio. Viu de relance estábulos e casas de madeira ao pé do castelo arder em chamas e uma luta intensa de gente dourada dos Javier contra os azulados de Lazio, estes em menor número. Estremeceu quando notou que os inimigos já tomavam o castelo pela entrada da frente. Seguiu a passos largos pela entrada da cozinha em direção as escadas em espiral que daria nos quartos. Os guardas jamais deixariam que tomassem a vida de seu Lorde. Pensou, quis acreditar no que pensara, mas o que podia fazer cavaleiros leais diante tanta superioridade em números de seus inimigos?

Com a espada do dragão pela primeira vez fora da bainha, avistou as escadas e para seu terror viu cerca de cinco cavaleiros azuis esparramados, mortos nos degraus. Correu inconsequentemente escada acima sem pensar quanta gente dourada encontraria na próxima curva, seria fatiado sem nem poder brandir sua magnífica lâmina. Mesmo assim seguiu, chegou ao corredor que dava nos quartos, passou pelo seu e só olhou de relance a bagunça feita, o quarto seguinte era o de Lucy.
Entrou como uma flecha no quarto da princesa e nada encontrou além de moveis fora de lugar, lençóis desarrumados e um gemido quase inaudível vindo do outro lado da cama. E lá estava. Lucy. Com sua camisola de ceda – ou o que restava dela – deitada de lado, gemendo, em choque e sussurrando por favor, por favor.

- Lucy, sou eu!! Sou Eu!! Dart! Me diga o que aconteceu aqui, cadê o Lorde, o príncipe!? – De nada adiantou os berros de Dart, a moça continuou gemendo. O menino do fogo virou-a e se deparou com o corpo nu da moça, as vestes estavam rasgadas, em outra ocasião aquilo teria sido a visão mais fantástica e excitante do universo, mas nem sequer pensara em outra coisa senão em manter a salvo sua amada. Mesmo de frente para ele, a princesa fitava-o e parecia não ver nada além de vazio, de trevas. Dart a sacudiu pelos ombros como a princesa fazia para acordá-lo de seus pesadelos, mas de nada adiantou. Viu sêmen entre suas coxas.

- Lucy, por favor, acorde! Temos de sair daqui! Lucy, sou eu! – Gritou desesperadamente o menino.
- Sou eu? E quem é você? – Ouviu uma voz vinda da porta do quarto. Gritara alto demais, fora desesperado e estúpido em um momento de crise, e isso poderia valer sua vida e de sua amada Lucy. Que tipo de cavaleiro eu sou, não sou ninguém, sou só um órfão infeliz que deveria ter ardido no fogo com o resto de minha aldeia.

Sem obter resposta, o homem alto e forte trajava uma armadura dourada pesada e empunhava em mãos uma enorme e imponente espada que ironicamente parecia ter sido forjada com lâminas de aço avermelhado de Carrión, falou em tom cruel:

- Essa puta ainda está viva? Esbofeteei, estuprei, gozei... Esbofeteei, estuprei, gozei... Quando parou de se mexer achei que estava morta, essa princesinha de merda, mas gostosa, se tá viva foderei ela de novo – Cuspiu o homem dourado.  A essa altura o menino do fogo apertava o punho de sua espada com uma força descomunal e embalado pela fúria partiu pra cima do gigante de armadura dourada, mas sua velocidade não era suficiente. Pouco depois de sua primeira e única investida três outros dourados adentraram o quarto. Era o seu fim. E de sua Lucy.

Mesmo esquema :D
VII
Um garoto sem nome tinha sido encontrado quase ileso no inferno, criado como um príncipe, se apaixonado por uma princesa, quase se tornado um cavaleiro. Certamente esse menino se tornaria um grande senhor, talvez não de um grande reino, mas senhor de si, como poucos. Dart poderia ter escolhido morrer, se entregado às chamas, mas apesar de tudo, escolheu viver. Ou melhor, a vida o teria puxado com suas mãos fantasmagóricas para a luz. 

O menino do fogo se encontrava seguro por dois dos homens dourados e sendo esmurrando no rosto e no estômago pelo grande homem que parecia ser o comandante deles, o qual tentara atacar com sua espada do dragão que jazia agora jogada no chão, inútil. Princesa Lucy foi arrastada para a entrada do quarto, ainda em choque e repetindo por favor, por favor. Outro homem dourado parou na porta do quarto e disse ao comandante que precisava de ajuda lá embaixo. O homem grande pediu que soltassem Dart, posso dar conta de um garotinho sozinho. Machucado, com seus músculos quase paralisados, o menino do fogo foi solto e se estatelou no chão, gemendo e imóvel - se não fosse os espasmos de dor.

O gigante dourado tirou o elmo pesado e quando seu olhar se encontrou com os olhos inchados do menino do fogo, quase chegou a sentir pena, mas gente dourada não sente pena. Dart apenas estremeceu. Que esse seja mais um pesadelo, o pior deles, que minha Lucy me sacuda os ombros e me faça despertar desse terror. Por favor, por favor. Olhando aqueles olhos, a mulher que gritou em sua mente aos prantos ao chegar perto das muralhas de Lazio tomou seus pensamentos de assalto novamente, desta vez voltou seu olhar à tocha, as mãos que a segurava, e o rosto de seu carrasco... O homem que fizera sua mãe arder em chamas na sua frente quando tinha três anos de idade... O homem dourado que estava a sua frente. Não pode ser ele, não pode ser ele

- Eu vou comer essa puta de novo, na sua frente, aprenderás antes de morrer como um homem de verdade fode uma mulher – cuspiu o homem dourado. Aproximou-se da princesa esparramada no chão e em choque e a virou de costas. Por favor, pro favor

Um garoto sem nome tinha sido encontrado quase ileso no inferno, hoje já sabiam por que nome chamá-lo, as mãos fantasmagóricas que outrora o puxaram para a luz e para a vida, agora, o puxava para a escuridão e para a morte, como no seu pesadelo. Trevas, trevas. De alguma forma ele sabia que não podia simplesmente desistir e ser arrastado para debaixo da terra enquanto a pessoa que mais amava no mundo era estuprada e morta na sua frente. 

O menino do fogo, nascido para ofuscar qualquer escuridão, queria ser fogo e arder, queimar e extinguir o mal, os homens dourados e a crueldade do mundo. Os devaneios derradeiros pareceram estúpidos e embalado por semelhante estupidez posou a mão lentamente no seu cinto de couro pendurado na cintura e quase sem conseguir se mover por causa do espancamento, apanhou o punhal na parte de trás do cinto. O homem grande montou em sua princesa fazendo-a gemer de dor. O homem de fogo de um salto - empurrado por mãos fantasmagóricas invisíveis - montou no homem grande e num corte preciso rasgou sua garganta, tirou sua vida, tirou-o de cima de sua Lucy.

Um homem dourado estatelado sem vida no chão com sua cabeça sobre uma poça de sangue, de seu sangue imundo e cruel. Uma princesa ainda em choque. Um menino de quinze anos quase sem vida arrastando-se em sua direção... Talvez ele tenha resistido ao fogo anos atrás para viver até aquele momento, vingar a morte de sua família matando o homem que os tirara a vida, mas não, aquilo não os traria de volta. Restava apenas uma coisa a ser feita, o menino continuou a rastejar, a fim de chegar mais perto e tentar sussurrar algo, já não tinha forças para sequer falar.

Três homens dourados armados de lanças adentraram o quarto, praguejaram surpresos ao verem o grande comandante deles com a garganta cortada, estatelado e morto. Dart chegou perto o suficiente de sua amada. Eu nasci do fogo... Eu emergi do inferno... Não para vingança, não para ser cavaleiro... Na verdade, não sei o porquê disso tudo... Mas talvez tenha sido para encontrar o amor e viver esse amor, não o vivi como gostaria... Mas estou morrendo por ele e com ele... Eu amo você mais que tudo nessa vida. Agora diga que me escutou, diga. A princesa anuiu com a cabeça e lágrimas escorreram como um rio em seu rosto branco como a neve. 

E então o menino do fogo teve sua carne perfurada igual peneira por lanças de homens dourados. Antes de seu último suspiro conseguiu ver a boca da princesa abrindo e fechando, mas não ouviu som algum, talvez fosse um Eu também lhe amo, desde sempre ou simplesmente mais um por favor, por favor. Morreu sorrindo acreditando ter sido a sua primeira hipótese. E já não via mais o rosto de sua amada. O mundo era escuro, silencioso e calmo. Morrer não era tão ruim quanto diziam. Teria pensado se pudesse pensar, mas as mãos fantasmagóricas invisíveis já tinham puxado o nosso menino do fogo para debaixo da terra. Trevas, trevas.

--
Desculpem a gigantescabilidade da historinha.

Comentários
1 Comentários

1 comentários:

Aninha disse...

Muito, muito bom! Principalmente os dois capítulos finais, parabéns.

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